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No teu último adeus trato-te por tu

por baía azul, em 08.07.12

Um dia disseste que te tratasse por tu.

Para mim não fazia muito sentido. És minha tia e eu não podia tratar-te por tu, por causa daquela educação que eu tive, aquela questão do respeito.

 

Tia, hoje trato-te por tu como teu último desejo.

Pelo menos hoje faço algo que te fazia feliz.

Não o fiz em vida porque também me disseste que se eu não era capaz tu irias entender e só querias que eu estivesse à vontade contigo. E estava.

Estava tanto que te pedi na última conversa que tivemos que não desistisses. Que lutasses por nós.

Disseste que já estávamos criados.

Que tinhas orgulho em todos nós. Estavas orgulhosa dos teus filhos e de nós, que não sendo teus filhos trataste como tal.

Dividiste tudo o que tinhas. O amor, os ralhetes, as roupas, os brinquedos, os natais, os almoços, os lanches.

Dividiste as preocupações, as alegrias.

E no final de todos estes anos não ganhaste a batalha contigo mesma. Disseste-me, olhando-me nos olhos que já não eras capaz, que já estava tudo feito, logo mais nada tinhas para fazer por cá.

Tinhas sim tia.

Tinhas tanta coisa para ver, tantos abraços para dar. Netos, sobrinhos netos, sucessos. Tinhas tudo o que cabe hoje no vazio que deixas.

Mas talvez isso não chegasse e eu não sou ninguém para te julgar e de uma forma egoísta perguntar-me porquê que não lutaste só mais um bocadinho.

Deixaste apenas que te visse mais uma vez, que cozinhasse para ti, que me preocupasse. Nos teus olhos não vi o brilho, na tua face não vi o sorriso. Mas ainda assim o meu coração dizia que ias enfrentar, que desta vez ias enfrentar.

 

No teu último adeus eu agradeço a mãe que foste para mim.

As conversas que tivemos, infindáveis, divertidas, envoltas em lágrimas toda a vez que eu "ralhava" contigo, as confidências que me fizeste, os conselhos que deste. Agradeço a amiga que sempre tentaste ser e foste, muitas vezes foste.

Não foste perfeita.

Ninguém é. Eu não te queria perfeita. Queria-te aqui, connosco. Queríamos-te aqui ao nosso lado, a rir como antes, a preparar-nos o almoço, a vestir-nos as camisolas e a obrigar-nos a calçar as galochas.

Isso foi há um tempo muito atrás, mas não apago da memória o dia em que me disseste: "esta é a tua casa também, quero que te sintas bem filha".

Eu tinha chegado de longe e tinha uma dor que tu compreendias e com o teu silêncio e os teus actos ias tentando fazer sarar.

 

Hoje digo-te adeus, aqui de tão longe. Sem poder tocar-te pela última vez e abraçar os meus irmãos aos quais docemente impuseste esse parentesco tão próximo e que nós facilmente aceitámos, até hoje.

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publicado às 14:56


1 comentário

De Marisa a 13.07.2012 às 10:17

lindo...
de chorar de emoção...

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