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Kwenda kue nene* com os mixeiros*

por baía azul, em 29.07.13

Desde que estou em Luanda, posso contar com todo o tipo de aventuras durante as viagens.

Já me aconteceu de tudo, de perder voos a deixar as malas no aeroporto, por não conseguir fazê-las embarcar ou mesmo ter discussões tolas à volta da "gasosa"!

 

Fora das viagens também já tive as minhas experiências. Muitas retratadas na famosa rede social Facebook.

 

Mas esta última não podia ficar num qualquer lugar difícil de encontrar, muito menos na memória, cada vez menos de fiar.


Começa mais ou menos comigo a tentar ser organizada e a comprar um bilhete de avião para Benguela com uma semana de antecedência.
Foram 24 mil kwanzas (240usd americanos, ao câmbio da kinguila) que custaram a sair do bolso, literalmente, entregues à canceladora Fly540 (companhia aérea).


Mas com bilhete na mão comprado, para sexta-feira, sem a possibilidade de viajar noutro qualquer dia seguinte, de repente vejo-me dentro de um cargueiro militar, na minha toillette desportiva, com malas (casual chic) a combinar. Nada podia ser mais contraditório e fora de contexto.


"Vem vem moça, vê só, cheia de não me toques! Vais perder! Lhe deixa!"


O mixeiro gritava e ignorava a minha razão de desconfiança, mas nem era ele quem me ia ajudar, era outro que já estava a entrar no carro para eu poder confiar no condutor.
A aventura começa um pouco antes, antes de me enfiarem num Toyota Starlet, azul escuro, vidros fumados e um indivíduo que nos tirava do aeroporto doméstico a caminho da base militar.

 

Chego ao aeroporto e bem antes de entrar para o check-in já alguém se dirigia a mim: "o voo foi cancelado".
Ou o fulano era adivinho ou estava encomendado, porque de facto a informação estava a ser dada à pessoa certa.

Corro para a loja da companhia do outro lado da estrada, cheira a tudo e mais alguma coisa numa rua de negociatas e "bisneiros", movimentada de gente e sons que me confundiam os sentidos.

 

Depois do reembolso na loja da companhia aérea, o fulano que me havia abordado no aeroporto não só me pede o dinheiro como o bilhete de identidade. Corre em direcção a um Starlet, "apenas" com o meu BI e grita:
"Entra moça." Orientou-me como se fosse natural pegar boleia sem destino, cheio de homens desconhecidos... num Starlet, atenção, num Starlet de vidros fumados.


Disse-lhe rapidamente que não entrava. Olhei para o carro com algum repúdio.
"Vem vem moça, vê só, cheia de não me toques! Vais perder! Lhe deixa!", gritava outro, a pensar no próximo cliente.

Confesso que entrei no carro com os medos a que tinha direito e com a parvoíce que me é característica.

 

Luanda, sexta-feira à tarde, uma cidade perfeitamente calma, sem situações inomináveis a registar, porque não entrar no primeiro Starlet que me aparece à frente e rumar sem saber o destino do condutor, mas com a certeza de que chegaria a Benguela? Pois, não há espaço para dúvidas.

 

Havia mais um passageiro. Bem menos preocupado que eu e que claramente contribuiu para a minha decisão de entrar no carro, a caminho da base militar.


Dentro do carro o assunto roçava algum moralismo e desilusão com a cidade de Luanda.
"Esta cidade não dá, não há amor ao próximo".
Eu queria rir-me com tamanha compaixão. Ele está a fazer o "processo", mas até na máfia há algum respeito, ética, certo?

 

O pão que chega para todos


Ao chegar à base somos entregues ao primeiro elemento, a quem o condutor do Starlet tem que pagar.
Depois somos entregues a uma segunda peça, que também tem que receber a sua parte. Essa segunda peça passa a um terceiro que pergunta de imediato pela sua parte.


De seguida somos enfileirados, ao bom estilo militar em direcção ao avião, pilotado por um russo que tem na cabine pelo menos 3 embalagens de Nesquik, um pó de chocolate para o leite que eu não via há anos.


E como é que sei isso? Porque como diria alguém muito próximo: "não se cancela o voo a alguém que sai nas revistas".
Piadas à parte, depois de esperar perto de uma hora que o avião militar estivesse operacional, consigo, através de contactos pessoais, sair caixa de carga, onde seguia já com algumas amizades feitas, uma carrinha género Mitsubishi L200, perto de uma centena de pessoas e muitas vigas metálicas,  para a cabine de quem comanda o bicho barulhento que solucionou o meu problema.


A aventura com destino à Catumbela e sérias intenções de chegar a Benguela ao aniversário de 50 anos da tia, tinha tudo para correr mal.
Durante a viagem não pude deixar de reparar na frieza militar e ao mesmo tempo na sua desorganização organizada.
Onde fiquei sentada não pude ver mais do que uma bacia com água suja de sabão e um senhor com cerca de 1,80 e muitos quilos, mas muitos mesmo em cima, que adormeceu feito bela adormecida, quase direito, sem se sentir afectado por um único solavanco do Hill que nos levava.

 

No processo destas boleias muita gente ganha. Os mixeiros do aeroporto são uns brincalhões de primeira e aparentemente pessoas de respeito e confiança. Só é preciso aumentarmos o nosso nível de tolerância no pagamento da mixa.
Não vou falar de valores exactos, nem tão pouco das patentes envolvidas. Prefiro. Mas façam as continhas. No processo estão entre 4 a 5 elementos envolvidos, se eles puserem cerca de 10 pessoas por dia num avião destes poderão lucrar 30 a 40 mil kwanzas por viagem (300/400usd americanos). É um pão garantido. 

Kwenda kue nene* - Andar de muito tempo - expressão idiomática (em umbundu) que os mais velhos usam para dizer que quem anda muito sofre as suas consequências, que aprendi com a minha avó.
Mixeiros* - pessoas que recebem um valor (decidido por elas) para facilitarem a vida a quem não faz as coisas pelos trâmites normais.

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publicado às 22:39


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