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Dentro da Muxima

por baía azul, em 03.01.11

 

1 de janeiro de 2011
Estou no comboio, Porto – Vila Franca de Xira é a viagem.
Foi uma aventura ter vindo. Mas uma aventura com mais coisas boas para guardar do que o contrário.
Família e amizade são dois conceitos, são duas realidades captadas nesta aventura, encaradas apenas se for de coração.
Não há meio-termo para nenhuma delas. Há um balanço, talvez uma dúvida, que cedo ou tarde acaba por ser desfeita. Ou se é ou não se é. Ou se é absolutamente ou se deixa para trás.
Família? Vi com os olhos, senti com o coração.
Não que não soubesse. Não que a minha não tivesse já demonstrado, mas sim porque elevamos ou rebaixamos o nosso sem muitas vezes termos experienciado o suficiente além fronteiras.
Já tinha visto vários exemplos do que o conceito família implica. Este último quase implicou uma passagem de ano em plena estrada, no meio do nada. O que importa? Havia uma avó ansiosa, uma tia revoltada, um namorado paciente e uma amiga, num carro a abarrotar.
Não seria o fim do mundo se o champanhe (vinho Lambrusco, aliás, comprado por mero acaso) fosse aberto no meio do nada algures entre Viseu e Aveiro, onde tudo o que havia era o breu.
Não seria o fim do mundo, estávamos na passagem de 2010 para 2011 não para 2012. Mas ainda assim não seria o fim do mundo.
Nem acredito que isso estivesse em causa.
Há no entanto uma angústia no que toca à família, naquilo que ela provoca em nós.
Ela mostra-nos o quão impotentes podemos ficar.
No amor atribuímos culpas a um dos pares, choramos, largamos, pensamos que amamos outro e partimos para uma qualquer desilusão que apague a anterior.
Na família não há trocas ou substituições. Há forças irreconhecíveis, dribles inacreditáveis, sucessos inesperados e neste caso há a sensação de frustração a cada minuto e a desacreditação em tudo o que possa mostrar mudanças.
Desgaste e desalento poderão estar como lapas. Somos matéria. Somos voláteis, adaptáveis e incrivelmente capazes. Seres que se desfazem num sorriso ou numa lágrima, que cedem a uma palavra, a um apelo.
Família é um motor, difícil, pesado, brilhante por fora, complexo por dentro. É o motor que nos leva aos destinos mais desafiantes, aos píncaros e aos vales.
Mas é só por ela que tudo isso vale a pena. Filhos, pais, irmãos, netos, avós e muito provavelmente, no meu caso, primos e tios. Os que nos alegram e angustiam com a mesma facilidade com que um ser humano respira.
Aqueles que nos conseguem convencer mais do que qualquer outro que somos os melhores e os piores.
Mas também existe uma coisa chamada amizade. E, antes de saltar para esse outro fenómeno, arrisco dizer que Família é algo que se constrói, não bastam os laços de sangue. Não somos para a nossa família apenas porque estamos unidos pelo genoma, mas porque a sentimos!
“Toda a doutrina social que visa destruir a família é má, e para mais inaplicável. Quando se decompõe uma sociedade, o que se acha como resíduo final não é o indivíduo mas sim a família” Victor Hugo
O fenómeno amizade é outro que me intriga e ao qual dei atenção especial em 2010. Escolher amigos nunca foi tarefa difícil para mim. Quase tão simples quanto saciar a sede.
Ter amigos é até um acto bastante reversível, ainda que envolva alguma estratégia. Pôr e tirar amigos é fácil.
No meu caso pôr é bem mais complicado que tirar. É quase um casting mental. Estratificá-los por influência na nossa vida igualmente difícil, mas tão útil quanto separar talheres, roupas consoante a estação ou pastas de email.
A minha reflexão sobre a amizade só surge pelas dúvidas que tinha sobre mim mesma. Naturalmente, já tinha sentido o que a amizade nos pode dar. Os meus já tinham feito muito por mim. Haviam preenchido espaços, que desconhecia existirem.
Nos últimos tempos a questão que se colocava era: quantas vezes estiveste tu pelos teus amigos? Uma dúvida originada pela descrença ou o pouco à vontade demonstrado no momento de pedir um favor. Creio que isso só se deve ao facto de como amiga revelar-me pouco disponível.
Surpreendi-me com o que posso fazer e, de forma espontânea. Desconhecia que fosse capaz. Os últimos anos foram de grande lição.  
Ter tido bons amigos, aos quais, confesso, só estar a corresponder agora, foi essencial para também o ser.
De tudo o que há de turvo, há a certeza de que em 2010 fiz uma conquista: envolver-me no fenómeno amizade.
Quantas mensagens posso ler desta noite atribulada de angústias, raivas e estupidez natural? Tantas quantas o bom senso for capaz de retirar, abdicando nunca do seu fio condutor: conceito Família, fenómeno amizade são mais fáceis de eliminar do que incorporar, mas isso seria como um concurso em que todos ganham, ou melhor, todos perdem.
(texto com algumas alterações a 2 de Janeiro)

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publicado às 00:37


4 comentários

De Treza@blogs.ao a 03.01.2011 às 12:18

Dá gosto ler-te quando te entregas. Não é que nem sempre te entregues, mas apenas que às vezes o não mostres. Espero que 2011 traga mais disto ;-) Com amizade, claro :-)

De baía azul a 04.01.2011 às 16:25

Sem promessas. Essa foi uma das resoluções 2011. Não fazer promessas :)

De Treza@blogs.ao a 04.01.2011 às 16:40

O meu desejo não é que prometas, mas que sintas vontade e à-vontade para o fazer ;-)

De baía azul a 06.01.2011 às 00:21

Se houvesse um like era o que faria ao teu comentário :)

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