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Holler If Ya Hear Me

por baía azul, em 20.08.14

Não entendo nada de arte.

Sei que gosto, sei das impressões, das sensações. Não entendo de perspectivas, da mesma forma que aprecio um bom vinho, mas não sei de que ano é a colheita ou as castas exactas.

Sei que gosto de música e é como se tivesse nascido a dançar, mas não sei que notas são, nem tão pouco acerto uma quando invento de cantarolar algo.

Sei que gosto de um rapper e eu não tenho ídolos, menos ainda heróis. Gosto das pessoas como elas são, sem as personificar num Hércules, num Ulisses, numa Afrodite ou numa Atena.

Custa-me especialmente escrever sobre o que admiro e rio cada vez que surpreendo alguém com gostos tão díspares e sui generis como eu ser fã do Tupac.

Parte-se do princípio de que todos os jovens negros gostam de rap! Talvez seja um lugar tão comum como outro qualquer. Mas apesar de negra ou half-qualquer-coisa, custa a muita gente entender por que motivo, eu, sim eu, gosto de Tupac. 

"Não és revoltada", "Nunca viveste num gueto", "Não dás cavaco ao racismo", "Não dizes asneiras", "Não fazes asneiras"... e por aí fora. Uma série infindável de justificações que não justificam o meu amor pelo Tupac.

Primeiro, faz muito tempo que deixei de dar importância a justificações que expliquem seja o que for, no que aos meus gostos respeita. A própria existência é algo que ninguém consegue explicar e essa é sem dúvida a minha maior questão.

Segundo, um ouvido democrático nunca fez mal ninguém.

E este meu ouvido democrático de há 30 anos decidiu comemorar em grande esse marco que são os 30. 

Fui até Nova Iorque e à la Americana programei a maior parte do fim-de-semana. Dias antes andei em pulgas, pela contagem decrescente em que tinha entrado, pelas pequenas coisas que tinha prometido fazer, pela ansiedade de reencontrar duas pessoas que fazem parte de metade da minha vida e com elas agendei os passeios quase todos, à excepção de um único: Holler If Ya Hear Me.

 

No último dia do fim-de-semana de comemoração passei duas horas, sozinha, dentro de uma sala de espectáculos, numa cidade em que tudo é impessoal e tudo é intenso, até uma viagem de metro.

 

Em plena Times Square, num dos muitos teatros no diâmetro do lugar onde todos os anos muitas centenas de turistas, senão milhares, vão ver a bola cair no fim do ano, está Holler If Ya Hear Me, um musical baseado no trabalho discográfico de Tupac Amaru Shakur, o chamado Shakespeare urbano dos nossos tempos, cuja vida foi muito curta e desproporcionalmente controversa.

 

Tupac nasceu no Harlem, bairro que conheci poucas horas antes de completar os 30 anos, morreu aos 25 anos, em Las Vegas, após ter sido baleado. Nessa altura eu era pouco mais do que uma menina, entendia tão pouco inglês como falo hoje italiano.  Ele não era um exemplo, pelo menos não para mim. Tinha a atitude, era o tal revoltado e falava de uma realidade que estava longe de ser a minha. De assédios, desrespeito, drogas, desemprego, crime e morte, quantas vezes morte.

 

"I Ain't Mad at Cha" foi a primeira música e videocilpe que vi e ouvi. 

 

Mas havia algo que me mantinha de alguma forma obcecada. Não de uma forma negativa, mas de uma forma impossível de explicar. Talvez tenha sido o meu mentor invisível.

 

Há precisamente um mês, sentei-me nesta sala sem expectativas, levando como companhia as memórias das primeiras VHS que vi com os seus videoclipes. Levava até a descrença de que algo feito pelo Tupac pudesse ser tão bem representado.

 

E esta sala, onde qualquer luz fora do cenário se notava por falta de sintonia, encheu-se com uma voz negra de um actor que não conheço, que ao descer do topo ao solo do palco apoderou-se dos meus sentidos e soltou as minhas lágrimas.

 

Conheci Nova Iorque, sim conheci Nova Iorque... os tais guetos em que não vivi e nunca vi. Entendi letras que não percebia tão bem, arrepiei-me com a capacidade de se pôr em palco um estilo de dança e de música como se faz com "qualquer" peça de Shakespeare. Surpreendi-me com a própria dança, eu que quando oiço Tupac apenas balanço a cabeça e, sim, bem sei que ele chegou a ser um breakdancer profissional.

 

Descobri que ele escrevia essencialmente sobre experiências que outros viviam e não sobre ele.

Absorvi cada detalhe do palco, do cenário e até do público - uma plateia tão heterogénea como o arco-íris. Lotada e diversificada, da idade ao género, do tom de pele às preferências sexuais. A cada apresentação, esta sala só pode ser um santuário, um lugar de culto para quem aqui chega e se deixa vencer por cada arrepio na espinha, praticamente inevitável.

 

Não entendo nada de arte, pouco ou nada de teatro, mas sei que quando uma peça nos faz chorar do início ao fim, que nos deixa com a certeza de que vale a pena voltar a ver e quando isso acontecer vamos ter outra percepção, vamos aprender mais qualquer coisa, sei que pouco importa o meu expertise inexistente, a peça é fenomenal. 

 

Viajei para um tempo em que não vivi, um lugar que não conheci, entrei numa vida que se tivesse perdurado nunca teria cruzado com a minha. Lavei-me em lágrimas de emoção, envolvida nas vozes daqueles que como eu cresceram a ouvir um dos jovens mais complicados que o rap já conheceu.

 

 

Se eu pudesse mudar alguma coisa na peça, acrescentava-lhe 5 minutos para "Brenda's got a baby"

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publicado às 02:13


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